Línguas Mortas
Abelardo de
Carvalho
No Brasil, em
cinco séculos de ocupação portuguesa, mais de
1.200 línguas indígenas desapareceram
juntamente com seus povos. Um extermínio étnico
e lingüístico. No entanto, o que se espera para
o futuro são perdas parciais, ou seja, os povos
serão poupados, mas seus idiomas sucumbirão ao
peso da globalização.
Em entrevista
publicada em maio de 1999, o lingüista francês
Claude Hagère fez uma advertência aos
brasileiros, alertando-nos para o fato de que a
americanização do Brasil é um insulto à nossa
latinidade. E digo mais: é um risco à nossa
própria sobrevivência não só cultural quanto
geográfica. Em se tratando de colonialismo,
subserviência sempre foi sinônimo de
extermínio territorial.
Assim como
Portugal nos colonizou, outrora, em troca de
nossas riquezas; os americanos nos tentam agora
colonizar por intermédio da língua, em troca de
nossa submissão. A colonização lingüística
se dá nos diversos cursos espalhados pelo país,
onde o que se obtém, como resultado, em noventa
por cento dos casos, é a sujeição do aprendiz
com relação à língua estrangeira. Aprendemos
a escutar, mas não à argumentar. Aprendemos o
suficiente para exercermos nossa obediência, sem
no entanto atingirmos um grau de conversação
que nos possibilite a dizer: NÃO!
Antes de nos
rendermos à tentação da língua inglesa,
deveríamos nos aprofundar no tupi-guarani, nossa
verdadeira língua mater. Mesmo em tempos de
Internet e E-mail, os quais eu usufruo, não é
ilícito afirmar que ainda podemos aprender muito
com os nossos índios. Antes de entendermos o que
venha ser globalização, precisamos decifrar os
sinais de fumaça. Bonito para mim não é saber
dizer Ailoviú, mas ita, tinga,
terrama e porã. É desta rima que
procuro beber, sem medo do futuro, sem medo das
críticas dos fantoches americanizados.
Não posso agora
precisar quem criou este termo paradoxal: Aldeia
Global, mas ele esclarece e ilustra o meu
raciocínio. Na poética de Gregório de Matos:
"O todo não é nada sem a parte. A parte
não é nada sem o todo". Ou seja, sem pés
fincado em nossas raízes seremos apenas
satélites girando obsoleto em torno de um ideal
globalizado. Sem nos agarrarmos à nossa
tradição e cultura, seremos banidos da terra,
como o foram os nativos que se deixaram vencer
pelos colonizadores renascentistas.
Aprender o
idioma inglês é hoje fundamental, mas não nos
iludamos com a sua hegemonia, ela á
circunstancial e ruirá juntamente com o império
americano. Há exatamente dois mil anos, quem
poderia sonhar que o latim, a língua mais
difundida do planeta na época, o suporte máximo
do Império Romano, estaria reduzida às cinzas,
extinta e morta, mesmo antes de se alcançar o
século XXI? Quando Napoleão quase dominou o
mundo, a língua francesa o acompanhou. Foi
ensinada no terceiro mundo até poucas décadas
e, na Rússia do século passado, era a língua
usada pela elite. E o que representa hoje em
termos de potencialidade? Nada. Não está nem
sequer entre os cinco idiomas mais falados
atualmente.
O lingüista
francês acha que nós, brasileiros, por estarmos
na América Latina, rodeados por nações
espânicas e formando com elas uma espécie de
mercado comum, o mais urgente e apropriado seria
aprendermos a língua espanhola. E adverte:
"Existem atualmente entre seis mil e sete
mil línguas faladas no mundo. Todo ano centenas
delas desaparecem, muitas sob a pressão do
inglês". Ele acha que até 2100 elas
estarão reduzidas a pouco mais de cem línguas
em todo o planeta.
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