Arte e
Pirataria
Abelardo
de Carvalho.
Os navios espanhóis fecundaram
o nosso litoral, desde o descobrimento, com os
mais diferentes e sagrados objetos. Perseguidos
pelos piratas e para escaparem ilesos, os
tripulantes eram obrigados a atirarem
nágua tudo quanto era dispensável. Foi o
que ocorreu numa remota aldeia de pescadores do
litoral paulista. Neste caso, a imagem de Nossa
Senhora de Guadalupe, cujo peso era
insignificante, foi atirada ao mar, não por
excesso, mas para se ver livre da profanação.
Quem narra esta história é o ambientalista
Ernesto Zwarg, responsável pelo tombamento da
mata da Juréia, sem dúvida um dos mais belos
cenários do território brasileiro.
Há um ano Zwarg me fez visitar
a ilha para conhecer a peça, que é oca e
banhada a ouro. A travessia é feita numa balsa.
As ruelas são estreitas e descontínuas, para
dificultar as invasões dos piratas em séculos
passados. Para livrarem-na da cobiça dos
ladrões, os nativos da ilha, pessoas simples,
desenvolveram um método bastante eficaz: a cada
semana a imagem é escondida num ponto distinto
da aldeia, numa espécie de cofre rudimentar que
os moradores construíram em suas casas. Por ser
de confiança, foi dado ao ambientalista o
endereço da santa, sem maiores ressalvas. A casa
onde a encontramos era de terra batida. No alto
de um dos quartos, embutido na parede, o cofre
mais parecia um sacrário. De posse da peça,
não me foi possível descobrir de que material
tinha sido feita. Ao menos se era esculpida ou
fundida. Curiosos com o barulho que se desprendia
de seu interior, os nativos tentaram cerrá-la,
mas desistiram a tempo, certo de que o estrago
seria maior que a curiosidade.
Valiosa e cheia de lendas, a
imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira
da América Latina, despertou o interesse até
mesmo do Bispo de Santos. Certo de que a peça
era patrimônio da diocese, o referido bispo foi
à ilha para levá-la consigo, mas como não
tinha nenhum documento de posse, o pedido lhe foi
negado. Segundo Zwarg, os pescadores a
encontraram na praia, numa noite enluarada, isto
por volta de 1700. Levaram-na para dentro de casa
e, devido ao reflexo da lua no ouro de seu manto,
toda a habitação ficou iluminada. O fenômeno
chamou a atenção das pessoas, que desde então
passaram a venerá-la.
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