A Arte Roubada
Abelardo de
Carvalho
Minas Gerais
preserva o maior acervo do País. O estado abriga
60 % de todo patrimônio histórico e artístico
tombado no território brasileiro. São 12
conjuntos urbanos, 24 arquitetônicos e
paisagísticos, 239 edificações isoladas e 21
conjunto de bens móveis. Para proteger todo este
acervo, a Secretaria de Estado da Cultura criou o
"Minas para Sempre", o maior programa
de proteção ao patrimônio histórico e
cultural já visto no Brasil. De caráter
preventivo, o programa possibilita intervenções
na restauração, conservação e segurança. E
visa evitar um dos maiores danos ao patrimônio,
que é o roubo de peças sacras.
Até o ano de
1997, cerca de 460 peças e objetos museológicos
foram roubados no Estado. Este ano, mais de 50
peças sacras roubadas de igrejas mineiras foram
recuperadas. Mais de 100 igrejas, distribuídas
em 43 cidades, receberam recentemente alarmes de
segurança. Segundo a presidente do (Iepha),
Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e
Artístico de Minas Gerais, até o final do ano,
outras 65 igrejas mineiras vão ganhar o mesmo
sistema de segurança.
Grande parte do
acervo de nosso barroco mineiro se encontra em
São Paulo, nas mãos de ladrões, donos de
antiquários e colecionadores inescrupulosos, que
pagam uma baba por uma peça setecentista.
Grandes colecionadores de arte sacra se abastecem
de peças roubadas nas cidades históricas de
Minas. Um texto de Antônio Cândido "A
Madona de Cedro" narra justo esta tragédia.
Recentemente, este mesmo texto foi roterizado e
televisionado, chamando a atenção da
população contra aqueles que prestam um
desserviço à nação e sarrafiam nosso
patrimônio. Em 1993, uma quadrilha foi
interceptada na Matriz Nossa Senhora
dAbadia, cidade de Iguatama, levando uma
peça do século passado: a porta de um sacrário
entalhado em madeira. Preso o líder, este se
revelou um homem culto, de poder aquisitivo
invejável, com curso superior e conhecedor das
técnicas barrocas.
Várias obras
primas têm sido roubadas ao longo do tempo e
principalmente das velhas e decadentes
civilizações. O próprio Museu do Louvre é uma
prova do quanto os franceses, e muito graças às
conquistas de Napoleão, têm saqueado a arte dos
orientais e médio orientais. A civilizações
dominantes são mestres nesta prática. Não
satisfeitos em violarem as culturas particulares
de cada povo, levaram os seus registros e as suas
próprias identidades. São mestres na arte de
roubar obras primas, os ingleses, franceses,
espanhóis, italiano e por último, os
americanos.
A nação cuja
arte talvez tenha sido mais saqueada é o Egito,
ou a Grécia, pelo que representaram no passado.
A primeira, pela riqueza e o exotismo de seus
faraós; a segunda, pela qualidade de seus
artistas, hoje reconhecidos como os pais da
cultura ocidental. A fase mais antropofágica da
arte se deu na Itália renascentista. Quantas
esculturas do passado foram destruídas, quantos
monumentos de bronze foram derretidos para serem
reutilizados na fabricação de armas de guerra,
como canhões e outros artefatos? O próprio Da
Vinci amargou esta experiência, quando viu o
bronze destinado à gigantesca estátua dedicada
a Francesco Sforza ser desviado durante a guerra
contra Carlos.
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