Brasil, 500 Anos

Abelardo de Carvalho

Plin Plin. "Faltam 365 dias para os 500 anos do ‘Descobrimento’ do Brasil". Dentro de um ano, estaremos comemorando 5 séculos de ocupação portuguesa em terras brasileiras. Mas, como querem certos teóricos e historiadores, o verdadeiro descobrimento se deu há pelo menos 11 mil anos, por caçadores nômades que migraram da Ásia. Durante as eras glaciais, estes caçadores teriam cruzado as geleiras que uniam, no estreito de Bering, a Sibéria ao Alasca, e daí ganharam todo o continente americano.

Quando as caravelas de Cabral aqui chegaram, em 1.500, num acidente de percurso, que benefícios trouxeram, além de gripe, cárie e escravidão? Decerto, muitos. O maior legado de todos, foi a construção de um País, com proporções continentais, unificado por uma mesma língua. Mas, por conta desta pseudo descoberta, pagamos, ainda hoje, um preço muito alto. Como predadores em potencial, aves de rapina, os portugueses devassaram nossas minas, roubaram nosso ouro e derrubaram nossas matas. Deram-nos uma pátria, mas levaram nossa dignidade. Escrevo não como açoriano, que ocupa 90% de minha herança genética, mas com os 10% que me resta de sangue nativo e negro.

A nudez dos índios e a exuberância da natureza logo iludiram aos exploradores de que haviam finalmente encontrado o paraíso bíblico, cuja maçã, em forma de pepitas de ouro e diamante, brotava do solo. A tentação do pecado estava disseminada e para sempre os nativos seriam expulsos e exterminados em nome da Santa Inquisição que ainda assombrava o renascimento europeu. A exploração portuguesa iniciou-se com o comércio da madeira, rica em pau-brasil. Para se proteger dos contrabandistas estrangeiros, se criou a primeira Capitania Hereditária, onde hoje é a ilha de Fernando de Noronha.

Muitas vezes, se confrontarmos a inteligência européia com a obscura ignorância nativa, teremos gratas surpresas. O que os índios chamavam de Guanabara, isto é, lagoa salgada, em tupi-guarani, os portugueses de Mem de Sá rebatizaram de Rio de Janeiro. Mas aquilo não é um rio e sim uma baía, pequeno golfo, um braço de mar. E, portanto, que me perdoe Camões, Maquiavel, Galileu e toda a elevada cultura européia, os índios pagãos tinham razão. Outro exemplo de que faltou aos colonizadores sensibilidade para compreender e valorizar a sabedoria dos índios, são a maneira e o local onde as usinas nucleares foram instaladas, isto é, Angra dos Reis. Se os alemães de Ernesto Geisel tivessem, na década de 70, indagado aos nativos quanto às instalações no sul fluminense, teriam evitado o vexame de tantas rachaduras, e as ameaças de uma eminente catástrofe, pois o nome indígena daquela região, quer dizer: terra podre!

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Plin Plin. "Faltam 358 dias para os 500 anos do ‘Descobrimento’ do Brasil". Vestígios arqueológicos de 48 mil anos atrás foram encontrados nas caatingas do Piauí, por uma arqueóloga brasileira. Os resíduos de carvão, logo foram contestados pela comunidade científica inte7rnacional, como prova de povoamento, pois nenhum sinal de vida humana foi encontrado no local. O certo é que quando os portugueses e os espanhóis chegaram à América, três grandes civilizações já a dominavam: Maias, Astecas e Incas.

A religião é a ruína de toda grande civilização, disse-me certa vez um professor. Sem mais se estender, deixou-me órfão com esta contundente afirmação, a qual, rumino, por quase duas décadas. Vale dizer que neste momento tal afirmação me será útil para descrever a derrocada da civilização Inca. Ou por outra: como explicar que poucas dezenas de espanhóis tenham derrotado milhares de incas, senão pela força da crença e da religião? Havia uma lenda sagrada entre os andinos de que deuses metade homem, metade animal, desceriam dos céus em naves estrelares. A civilização Inca não conhecia os cavalos e quando os espanhóis desembarcaram de suas naus, não obtiveram resistência. Foram recebidos como verdadeiros deuses. O chefe Inca Atahualpa foi preso e estrangulado e todo o ouro saqueado. Não fosse a crença nativa, é bem possível que Pizarro, o dominador espanhol, jamais tivesse retornado à civilização.

O ator Marlon Brando, o mais anti-americano dentre todos os americanos, defendeu como pode a autonomia da raça indígena. Testemunhou certa vez, que, somente aceitou interpretar o inquisidor Torquemada, em Cristóvão Colombo, a aventura do descobrimento, porque queria ter a oportunidade de moldar o filme próximo da verdade histórica. Isto é, Brando não queria ver Colombo sendo homenageado como herói, pois achava que o dia de Colombo deveria ser um dia de luto. E que, ao invés de o exaltarem como navegador e explorador, o roteiro deveria revelar como o genovês e seus seguidores exploraram e mataram os índios que foram recebê-los. Brando queria que o navegador fosse representado como um homem cruel e ambicioso, que não se detinha diante de nada, nem mesmo da ingenuidade dos nativos americanos. Colombo, de certa forma, é a síntese de todos os conquistadores europeus que desbravaram e destruíram, em nome do rei e do papa, as culturas ditas pagãs.

A carta do chefe Seatle ao presidente dos Estados Unidos nos dá a dimensão do quanto a civilização ocidental européia precisa beber dos nativos terceiro mundistas. Prova disto, são as invasões de cientistas europeus, nos tempos atuais, disfarçados de turistas, para se apropriam das culturas e medicinas naturais de nossos índios milenares. A biopirataria é um crime contra o que restou de nosso patrimônio mais raro: fauna, flora e nativos; e está para os tempos modernos assim como a madeira e o ouro, para a ocupação portuguesa.

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