Carmen
A Ópera Cigana
Abelardo de
Carvalho
I
A estréia
mundial da ópera Carmen, de Georges Bizet,
ocorreu em 1875, na Opera Comique, em Paris. Ela,
que hoje é a mais popular e a mais representada
em todo o mundo, foi recebida com frieza, por
ocasião de sua estréia. Os principais jornais
franceses lhe dedicaram duras críticas. O Le
Siècle chegou a escrever que Bizet
precisaria desaprender muitas coisas para se
tornar um compositor dramático. Não teve tempo.
Desgostoso, o compositor morreu três meses
depois de consumado o fracasso do que viria a ser
a sua obra-prima.
O curioso é que
Galli-Marié, a primeira cantatriz a incorporar a
personagem Carmen, pressentiu a morte do
compositor. Ela terminava a ária das cartas, no
final do terceiro ato, com a frase fatídica:
"A morte, sempre a morte!", quando
gritou algo que não estava na partitura.
Imediatamente interromperam a récita e cercaram
a cantora que, ainda incorporada da personagem,
repetia sem parar: "Bizet morreu, Bizet
morreu." De fato, naquele instante, em algum
lugar da França, as 37 anos de idade, o
compositor Bizet exalava o seu último suspiro.
Suicídio ou não, sua morte prematura ainda hoje
é lamentada.
O cinema tem
explorado muito o caráter impetuoso de Carmen.
Sob a ótica de diversos diretores, ela vem
ganhando originais e diferentes interpretações.
Ainda no princípio do século, Chaplin, que
dispensa apresentações, filmou a sua versão
cômica, em que aparece, como Carlitos, na pele
do infeliz Don José. Na era do cinema mudo,
Chaplin centrou sua história, um curta metragem,
na figura do arruinado soldado, talvez
influenciado pela novela homônima de Merimée,
onde tudo se originou. O cineasta espanhol Carlos
Saura, por sua vez, a transportou para as telas
traduzida em danças flamencas. Contando com a
participação emblemática do bailarino Antônio
Gades, que interpretou Don José, Saura mesclou
ficção e realidade, dentro de um contexto
cinematográfico. E explorou, o quanto pode, a
sensualidade da dança flamenca, para obter um
melhor retrato de Carmen. A Carmen mais
contemporânea foi rodada, também na década de
80, pelo cineasta francês Jean Luc Godard
(diretor do polêmico Je Vous Salue Marie
e Acossado.). Na película francesa,
Carmen é uma guerrilheira urbana, assaltante de
bancos, longe de suas tradições ciganas. A
obra, hermética e deslocada de seu contexto
original, somente pode ser associada à ópera,
pelo título: Prenome Carmen. E um e outro
traço característico que porventura tenha
sobrevivido às transformações inventivas
imposta pelo cineasta. A indústria hollywoodiana
também produziu a sua Carmen Jones, uma versão
onde os solistas, os coristas, os costumes e a
ambientação se dão no âmbito da raça negra.
O cineasta que mais se ateve ao libreto foi o
italiano Francesco Rossi. Sua Carmen, como as
demais, da década de 80, se limitou, em termos
de concepção e liberdade de criação, a tirar
a montagem dos palcos e transportá-la para ruas
de Sevilha, onde se desenrola a trama e, e um
modo geral, para os campos de Andaluzia.
II
Devo confessar
que, em minha miserável condição de artista,
procurei beber de diversos segmentos de arte. Foi
assim que um dia me deparei com uma montagem
belo-horizontina da ópera Carmen, de Bizet, no
Palácio das Artes. Minha voz taquara rachada e a
quase nula vocação musical não me reservavam
futuro brilhante no mundo do canto lírico. Mas
achava que isto não era empecilho para eu estar
ao lado dos comparsas escolhidos para figurarem
entre coristas, cantores e bailarinos. E assim
foi. Com a condição de não abrir a boca, fui
integrado ao elenco da montagem operística mais
grandiosa que Minas Gerais jamais comportou.
Pouco tinha
escutado falar desta cigana, cuja maior virtude
era seduzir e arruinar os homens que atravessavam
o seu caminho e cujo lema ficou, para sempre,
gravado em minha memória: "Se você me
quer, eu não te quero. Mas se eu te quero,
cuidado!" A montagem belo-horizontina se deu
no ano 1984, e teve Luciano Luppi como encenador,
regência do maestro Carlos Alberto Prates e
cenários de Raul Belém. Os figurinos
vieram emprestados do Theatro Municipal do Rio.
Cavalos entraram em cena nos III e IV atos, o que
serviu, segundo os jornais, para demonstrar a
grandiosidade da montagem. Três cantatrizes
revezaram no papel de Carmen, o que alterava
consideravelmente a qualidade dos recitais. Houve
momentos em que o maestro precisou interceder com
sua voz de barítono para ópera não emperrar.
Vendo hoje, e tendo me tornado um carmemaníaco,
tudo não passou, em vão, de um grande esforço
e sucessivos equívocos. O andamento da música,
que os críticos na época acharam lento,
dificultava o entendimento da personagem
principal e comprometia a latinidade das
personagens de sangue gitano e de temperamento
espanhol.
A origem de toda
a história está na novela homônima de Prosper
Merimée. Em uma de suas viagens à Espanha,
quando ainda jovem, ouviu o relato sobre um
condenado à morte, que havia se desviado da
carreira militar para acompanhar uma cigana
feiticeira. Arruinado, Don José a teria matado.
Depois de muitos anos convivendo com a história,
Merimée escreveu a novela. Para os críticos da
época, tudo não passava de literatura amadora,
sem muita expressão no meio literário. Seu
maior triunfo foi servir de fonte para os
libretistas responsável pelos diálogos da
ópera.
Ao longo do
tempo, no entanto, o espírito de liberdade, que
impulsiona a personagem andaluza, tem se
expandido. Quase um século antes da liberação
feminina, Carmen já era uma bandeira de
emancipação. Dona do próprio destino, ela
causou indignação logo na estréia, com frases
e atos contundentes, contida em árias como Habanera
e Seguidilha: "O amor é um pássaro
rebelde que ninguém pode aprisionar,
O amor é um menino cigano que nunca
conheceu qualquer lei; se não me amares, eu te
amarei, se eu te amar, cuidado!, O
meu coração é livre como o ar.,
Quem quer a minha alma? Ela está
livre!, Não tenho medo de nada.
Carmen nunca cederá! Nasceu livre e livre
morrerá!".
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