Carnaval - A Festa da Carne

Abelardo de Carvalho

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O carnaval moderno tanto pode ter-se originado na Grécia, das festas dionisíacas, dos bacanais romanos, como das festas dos inocentes e dos doidos, na Idade Média. Em todos eles, o mesmo espírito, os mesmos traços: o uso de máscaras, danças sensuais e muita liberdade de expressão.

No Brasil, ao longo do tempo, a festa do Rei Momo foi explorada de diversas maneiras. E logo se diferenciou dos carnavais europeus, pelo caráter irreverente do povo brasileiro, que o transformou num delírio coletivo. A partir de então, os blocos começaram a se formar, grupos de mascarados, utilizando-se principalmente do humor e da alegria para cantarem suas mazelas. Ainda hoje se pode assistir no Rio de janeiro ao bloco "Sovaco de Cristo", e à famosíssima "Banda de Ipanema". Belo Horizonte também está aqui representada pela divertida "Banda Mole". O carnaval de rua é o mais popular dentre todos, sem regras fixas, desenvolveu-se principalmente no Recife, com seus folclóricos bonecos gigantes. Mas, hoje, se encontra refortalecido e modernizado em locais como Olinda, Salvador e cidades históricas mineiras. Embalados por trios elétricos, estão longe de se assemelharem aos carnavais das marchinhas, do princípio do século.

Na década de 60 surgiram os salões, com seus bailes em clubes suntuosos e freqüentados somente pelas classes sociais de melhor poder aquisitivo. Resistem ainda, país afora, como podemos ver em bailes: "Vermelho e Preto" e "Scala Gay", no Rio de Janeiro. "Ilha Porchart Club", em São Paulo. E "Branco e Preto", em Belo Horizonte, dentre tantos outros. Até 1846, as festas momescas, no Brasil, eram animadas por danças como a polca e as valsas. "O Abre-Alas" de Chiquinha Gonzaga, inaugurou a era das marchinhas brasileiras, que alimentavam os chamados Ranchos, embriões dos sambas enredo e Escolas de Samba, respectivamente.

A explicação para alas das baianas ser quesito obrigatório em todos os desfiles, está no fato de que as escolas de samba carioca nasceram nos morros da cidade maravilhosa. Os escravos baianos que, após a Lei Áurea, desceram para o sudeste, invadiram a capital da República, Rio de Janeiro, mas foram literalmente expulsos para os morros. Ali, se instalaram, e logo compositores de alto nível como Donga, Cartola e Ismael Silva começaram a se destacar, chamando atenção para suas culturas. Além da ala das baianas, uma escola de samba é avaliada pelo seu conjunto, evolução e harmonia. É a partir do enredo que se cria o samba, as alegorias, os adereços de mão e as fantasias da comissão de frente, bateria, porta-bandeira e mestre-sala.

O carnavalesco é geralmente um artista que domina não só a arte de criar figurinos, como também a escultura, o desenho e a arquitetura. É ele quem dá unidade à escola. Renato Lage, com quem tive o privilégio de trabalhar, embora não tenha completo o segundo grau, é um artista completo. A mão-de-obra de um barracão de escola de samba é composta basicamente por mecânicos, ferreiros, marceneiros, escultores, pintores, eletricistas, aderecista, decoradores, compradores, costureiras, coreógrafos e mestres de bateria. O bicheiro é quem banca grande parte do dinheiro, mas toda a responsabilidade recai sobre o carnavalesco, que luta para conseguir: fidelidade ao tema e às cores da escola, uniformidade e plasticidade.

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O meu envolvimento com o carnaval carioca se deu, há dez anos, de maneira acidental. Os universitários, cursando o Centro de Letras e Artes da Uni-Rio, foram convidados pelo carnavalesco Joãozinho Trinta para comporem uma das alas dos mendigos, na Beija-Flor, de Nilópolis. Pela primeira vez na vida, abri mão de minhas férias, em Minas, e caí de cara na folia das Escolas de Samba.

O desfile da Beija-Flor, naquele carnaval de 89, foi apoteótico. O lixo, pela primeira vez, era destaque na passarela do samba. Era o retorno do polêmico Joãozinho Trinta que, há tempos sobrevivia apenas da fama de carnavais passados. A Escola não levou o título, é bem verdade, mas quem não se lembra do Cristo Redentor coberto, por determinação da justiça e alívio da igreja? Ou, por outra: quem se recorda da campeã daquele carnaval? Pouquíssimos. O "politicamente correto", termo reacionário, ou, pseudo filosofia americana, foi quem determinou o resultado daquele desfile. Em ano de centenário da República, venceu quem abordou o tema.

O certo é que o vírus do carnaval já havia me contaminado. Artista que sou, vislumbrei, nos barracões das Escolas de Samba, mananciais e espaço para desenvolver meu trabalho. Dito e feito. Em 90, me empreguei na Mocidade Independente de Padre Miguel, cuja Escola defendi por 4 anos, como aderecista e pintor. Apesar da fartura de material, de mão-de-obra especializada, de profissionais gabaritados e muita infra-estrutura, a verdade é que reinava, nos barracões, um sentimento escravocrata. Para se ter uma idéia, éramos 200 pessoas confinadas num pátio espremido entre alegorias, em regime de quase cárcere, com folga somente aos domingos. Um único banheiro com três vasos sanitários e três chuveiros estava disponível. Uma calamidade! Os horários eram determinados por um sino estridente que não deixava ninguém deitado depois das sete e meia da manhã. As refeições eram por conta dos contratantes. Como o serviço se estendia madrugada adentro, uma sopa era servida às duas e daí, até conseguir vaga na fila do banho e arranjar um canto para dormir, já estava quase amanhecendo. Às sete e meia, de novo, o sino. Este ritual se repetiu por dois meses. O resultado não poderia ter sido outro: estafa!

Apesar de tudo, mas empolgado com o título de campeã, retornei à Escola, no ano seguinte. O clima era de bi-campeonato, aliás, conquistado. E o enredo: "Chué, Chuá, As Águas Vão Rolar". Foi o maior show pirotécnico que já presenciei. No carro abre alas, uma fonte computadorizada, esguichava água à uma altura de 4 metros e ao ritmo do samba. Em outra alegoria, um feto gigante pulsava no ventre do globo terrestre. No que seria a representação do fundo do mar, dois peixes, de 12 metros cada um, cuspia, no público boquiaberto, 500 bolhas de sabão por minuto, através de um mecanismo motorizado. E assim por diante.

O bi-campeonato da Mocidade foi marcado pelo esbanjamento. Foram gastos 950 mil dólares, quase um milhão, para que o patrono da Escola, o Sr. Castor de Andrade, hoje já falecido, pudesse comemorar o seu retorno à liberdade, de posse de mais um título. Figura carismática, certo dia apareceu no barracão, reuniu os seus "escravos remunerados" e procurou saber o que estava faltando para a conquista do bi. Realmente nada, concordamos. O salário, da maioria, tinha sido reajustado em 200 %. Mas, daí, alguém argumentou que sentia falta de fruta nas refeições. Castor sorriu e se foi. No dia seguinte, um caminhão estacionou, na porta do barracão, com um carregamento de dar inveja à qualquer Ceasa. Não estou aqui fazendo literatura, mas contando uma experiência e exemplificando o que venha a ser o Brasil das contradições.

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