Dalí, o Último Bufão
Abelardo de
Carvalho
Salvador Dalí se apresentou ao
mundo de maneira contundente. No filme "O
Cão Andaluz", realizado em parceria com o
cineasta surrealista Luís Bruñel, há uma cena
em que vemos uma lâmina em close vazar um
olho humano. Salvador Dalí nasceu em Figueiras,
Espanha, no início do século. Filho de família
tradicional, teve criação rígida e cristã. Na
adolescência, já se encontrava em Madri, em
companhia do poeta Garcia Lorca. Num dado
momento, por falta absoluta de dinheiro, os dois
decoraram o apartamento onde moravam e o abriram
à visitação pública, mediante ingresso. Lorca
morreu durante a guerra civil espanhola, mas
recentemente foram publicadas as
correspondências entre ambos, com forte
sugestão de práticas homossexuais.
No entanto, Dalí se apaixonou
por Gala, a esposa russa do amigo e poeta Paul
Eluard. Certo dia, convidou o casal para um
veraneio na casa de praia da família, raspou as
axilas, se lambuzou com fezes de bode, pintou o
próprio corpo e conquistou para sempre o amor de
Gala. Foi sua eterna musa e aparece em quase
todos os quadros do artista, das formas mais
diversas. Desde então as bizarrices não mais
cessaram. O mesmo Eluard foi antagonista de outra
cena. Durante uma missa, Dalí o agrediu.
Refeitos os ânimos, perguntaram-no o por quê da
agressão. Ao que Dalí respondeu, de maneira
irresponsável: "Eluard estava querendo me
roubar uma idéia que ainda não tive."
O Museu da Pampulha, em Belo
Horizonte, no ano de 1998, expôs várias facetas
do artista. Grandes esculturas estavam espalhadas
pelo jardim, dentre elas, um rinoceronte, pesando
toneladas. No térreo, outras duas dezenas de
escultura, com destaque para sua versão da
Vênus de Millo, cujos seios e demais partes do
corpo se abriam em gavetas. No primeiro andar, um
conjunto de baixos relevos revelava toda a
sensibilidade do artista, além de fotos que
acompanhavam sua trajetória artística. A
decepção da Mostra ficou por conta da ausência
de sua obra pictural, terreno em que Dalí melhor
se expressou. Apenas dois míseros quadros
completavam a exposição.
Alguns críticos acusam a sua
obra de ser cerebral, mas Dalí foi muito mais
que um artista de cavalete. Além de visionário,
selou com a sua morte, o desaparecimento dos
bufões. Suas extravagâncias começavam pelo
exótico bigode e se expandiam em atitudes nada
convencionais. Era um ser obsessivo, egocêntrico
e dotado de uma autopromoção. Tinha o dom de
transformar cada ato seu num acontecimento. Já
consagrado e reconhecido mundialmente, Dalí
aceitou o convite para uma conferência no
Estados Unidos. Aproveitando a ocasião, uma
famosa indústria de cosmético encomendou-lhe um
frasco de perfume, supondo que o resultado seria
o mais original possível. Na verdade, Dalí se
esqueceu da encomenda e, durante a conferência,
quando lhe solicitado o frasco, não se abateu:
retirou a caneta esferográfica do bolso e a
apresentou. No que foi aplaudido pela platéia.
Por isso talvez amasse tanto o capitalismo, onde
fez fortuna, zombando do mundo com seu espírito
bufão.
Quem, senão ele, poderia ter
afirmado: "Picasso é um eunuco; Miró é
incapaz de assassinar a pintura, como prometeu;
Cèzanne é a mais pura expressão da decadência
da arte; Matisse não era mais que um pobre
cozinheiro; Kandisky teria sido um admirável
fabricante de bengalas; Braque é um perfeito
pintor de fachadas; Moore, comparado com
Praxiteles, é o bruto da cidade".
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