Arte no Deserto

Abelardo de Carvalho

Onde? Nas areias quentes e gélidas do deserto de Atacama, ao norte do Chile, podemos encontrar uma das mais misteriosas e enigmáticas manifestações do homem: as imagens, geoglifos, que em grego quer dizer: escrituras na terra. Os artistas do deserto desenvolveram seus trabalhos no ponto mais seco do planeta. Por isso, seus desenhos estarem estreitamente ligados à escassez da água ou sinalizações indicando rotas e trilhas que levam ao litoral. Esta é pelo menos uma das versões mais comumente usadas para explicar o fenômeno artístico.

O mais importante sítio arqueológico do Atacama, abrigando o maior conjunto de painéis, Cerros Pintados, mede 4 quilômetros de extensão e comporta 420 desenhos. Dentre eles, uma seta de 12 metros de comprimento, apontando para baixo do morro, onde provavelmente se encontraria água. Mais adiante, um tubarão avisa aos transeuntes que o litoral se aproxima.

Quem? Antes dos europeus chegarem ao continente, há pouco mais de 500 anos, duas grandes civilizações, os tiwanakotas e os incas, já haviam controlado o deserto andino. Se os incas sempre despertaram o interesse do homem ocidental, ora pela arrojada arquitetura de suas principais cidades: Cuzco e Machu Picchu, ora pela agricultura ou pelo exotismo de seu maior líder: Athauaupha; o mesmo não se pode dizer do império tiwanaku. Poucos arqueólogos tiveram a coragem de enfrentar o calor e frio do deserto (45o no verão e 10o negativos no inverno. ), para debruçar sobre esta intrigante cultura e sua galeria de arte ao ar livre.

Além do professor Brione Morales, do Departamento de Arqueologia da Universidade de Tarapacá, apenas a canadense Persis Clarkson se aventura atualmente na descoberta de mais geoglifos. Em 1997, ambos acharam duzentos deles, até então desconhecidos. Para isto, precisaram seguir antigas trilhas e acampar em lugares ermos e sem água, sob um sol escaldante. É por iniciativas como estas que os dois cientistas ficaram conhecidos como os guardiões do grafite pré-histórico.

O quê? Os desenhos, enormes trabalhos na areia, chegam a medir até mais de 200 metros de comprimento e representam animais da região, caravanas, seres humanos e divindades. Para o professor Brione, as enigmáticas figuras gravadas no deserto são trilhas de mais de 1.000 anos. Uma das figuras mais impressionantes, conhecida como o Gigante do Atacama, representa, na verdade, o Deus do Sol e Criador do Mundo: Wiracocha.

De sua cabeça saem doze raios e os braços estão dobrados para cima. Há uma lenda entre eles, na qual Wiracocha, o Deus do Sol, teria emergido das águas do Lago Titicaca, na Bolívia, para criar o primeiro casal humano. Ali nasceria Tiwanaku, a cidade sede do império, considerada, por eles, o centro do mundo. A figura do Deus do Sol desenhada na areia, naquelas proximidades, servia para confirmar a rota aos transeuntes e indicar a que distância estavam da cidade sede, como se fosse uma placa de boas vindas. É preciso salientar que os tiwanakotas era um povo de grande religiosidade, conquistadores pacíficos, que souberam fazer como poucos o intercâmbio entre o deserto e o litoral.

Quando? Segundo os estudos do professor Brione Morales, do Departamento de Arqueologia da Universidade de Tarapacá, os geoglifos foram feitos para demarcar uma rede de estradas, usadas por homens e ilhamas, por volta dos anos 500 a 1.500 d.c.. Há pelo menos 5.000 destes desenhos, ou como queiram: escrituras na terra, conhecidos e preservados no deserto de Atacama, ao norte do Chile. É provável que muito deles tenham sido destruídos por terremotos, tão comuns na região ou simplesmente por turistas togloditas.

Como? Os artistas do deserto de Atacama utilizavam duas técnicas para fazerem seus rabiscos na areia. A primeira, constituía-se na remoção de pedras oxidadas, de cor escura, juntamente com a areia mais superficial, produzindo um sulco de até 15 centímetros de profundidade. O efeito era imediato, pois o fundo claro contrastava com as demais pedras oxidadas. A Segunda, adotava o oposto, isto é, ao invés de retirar, os artistas acumulavam pedras vulcânicas, empilhando-as, uma sobre a outra, à uma altura de 20 centímetros, de forma que desenho surgia em relevo.

Por quê? "A civilização que fez os desenhos não existe mais. Por isso, talvez nunca consigamos traduzi-los", diz Brione. "No deserto, saber a localização das fontes de água é fundamental. E o cálculo das possibilidades de chegar a elas tinha que ser preciso". Alguns desenhos de animais como sapos e lagartos, animais sagrados associados à água, nos dão a nítida impressão de que estão ali para orientar e indicar os transeuntes. O lagarto estilizado, que no Cerros Pintados surge com mais de 30 metros, segundo a tradição andina, atraía chuva e daí a razão óbvia de encontrar-se naquele local árido.

As figuras chilenas somente encontram similares em manifestações na civilização inca, Peru. Porém, é preciso observar que os geoglifos incas são bem mais geométricos e abstratos, o que causou impressões a certos estudiosos de que havia ali traços de civilizações alienígenas...

As figuras chilenas somente encontram manifestações similares na Civilização Inca, Peru. Porém, é preciso observar que os geoglifos incas são bem mais gigantescos e muitas vezes abstratos, o que levou o autor de Eram os Deuses Astronautas?, o suíço von Däniken, a divulgar que ali haviam traços explícitos de civilizações alienígenas. Como queiram: campos de pouso para aeronaves espaciais. A tese pegou e o local passou a ser visitado por pessoas do mundo inteiro. De qualquer maneira, há traços de que elas evoquemalguma religiosidade.

A arte no deserto, além de se fazer comunicar, sempre esteve ligada à sobrevivência humana. No deserto de Kalarari, ao sul do continente africano, os nômades desenvolveram uma técnica bastante original para atrair os animais selvagens.

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