Esculpindo o Tempo

Abelardo de Carvalho

A escultura acompanhou o homem desde a pré-histórica e tanto pode estar representada na arte de modelar o barro e a cera, como na arte de esculpir a madeira e a pedra. Há também os que fundiram os metais e os plásticos. Praticamente, todas as civilizações têm os seus escultores e todos os movimentos, os seus representantes. Na Europa, Degas, Rodin e Renoir estão incluídos no impressionismo. O simbolismo conta com Minne, Vigeland e Aristide Maillol. Barlach e Lehmbruck são as figuras do expressionismo. O cubismo está representado por Duchamp, Villon, Picasso e Archipenko. No Brasil, representando o barroco mineiro, Aleijadinho deixou um conjunto de obra de primeira grandeza. Mais recentemente surgiu no cenário nacional o nome de Lígia Clark. Em suas mãos, a escultura assumiu as mais diferentes aparências. Há pouco mais de uma década, Divinópolis perdeu o seu maior artista: GTO, cujos os entalhos em madeira impressionam pela originalidade e plasticidade.

Camille Claudel é um nome em alta. Um filme estrelado por Isabelle Adjani a fez reconhecida em todo o mundo. De família francesa, Camille se apaixonou por Rodin, o maior escultor, desde Michelângelo. O romance entre os dois foi tumultuado. Reconhecendo o talento da jovem artista, Rodin a acolheu em seu atelier, mas sem conseguir um espaço no cenário parisiense para expor os seus trabalhos, Camille Claudel foi dada como louca e passou os últimos 30 anos de sua vida em um manicômio francês. Escreveu cartas ao irmão, o poeta Paul Claudel, de uma lucidez inquestionável. Morreu velhinha e desdentada sem jamais ter retornado ao convívio social.

Uma recente exposição percorreu as principais capitais do País e chamou muita atenção pela qualidade das peças esculpidas. Camille hoje deixou de ser apenas a amante mais ilustre de Rodin, para constar na lista dos maiores escultores do século. Rodin, o verdadeiro mestre de Camille Claudel, parecia se mover na tradição clássica, conforme a qual o escultor não faz mais do que retirar o que sobra do bloco de mármore a fim de que a figura, que está dentro, apareça. Por outro lado, Rodin não foi um entalhador, nem sequer um gravador, todos os historiadores estão de acordo de que sua técnica é a do modelador. Suas esculturas não resultam em tirar, mas sim em acrescentar, no seu caso, acrescentar argila. Não descobre o que o bloco oculta, tal como fazem os escultores clássicos e neoclássicos, porque não existe bloco algum; acrescenta, como o oleiro, até criar um volume.

Para Subirachs, escultor espanhol, contemporâneo, responsável pelas peças em mármore que decoram a parte moderna d’A Sagrada Família, em Barcelona, "o escultor , bem como o arquiteto, colabora com os elementos escolhidos, e será um mau artista se contradiz a natureza do material em que trabalha. O barro é provavelmente o primeiro material utilizado pelo homem. Outros três materiais que predominaram ao longo da história: a pedra a madeira e o bronze. Mas os novos tempos trouxeram novos materiais para a escultura e ainda novas e originais formas de entender esta arte. Talvez seja na arte da escultura onde vemos com maior clareza que a forma é o resultado da união da idéia e a matéria. E esta união deve realizar-se forçosamente com amor: o artista não luta com a matéria, mas dialoga com ela para conseguir o que deve ser o resultado de toda a obra de arte: a materialização da idéia".

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