Frida Kahlo
Abelardo de
Carvalho
A pintora
mexicana Frida Kahlo é o exemplo clássico de
como o sofrimento pode esculpir um artista, de
como o sofrimento produz obras primas. Casada com
o mais famoso pintor de seu País, Frida sofreu
um acidente de carro quando tinha 18 anos.
Fraturou a coluna, diversas partes do corpo e
enfrentou 35 cirurgias. Durante toda sua vida,
lutou para abstrair-se da dor. Teve uma das
pernas amputada e jamais chegou ao término de
uma única desejada gravidez, devido aos
vários abortos naturais.
Nasceu nos
arredores da cidade do México, junto com a
Revolução Mexicana e aos sete anos já sofria
de poliomielite. Certa vez, chegou a comentar que
já não fazia mais idéia do que era dor.
Inválida numa cama, Frida dedicou-se à pintura.
Sua arte foi admirada por Picasso, Breton,
Duchamps e depois esquecida. Há pouco mais de 10
anos o mundo a redescobriu. Seus auto retratos se
valorizaram e até um filme foi rodado. No ano
passado, montaram em São Paulo uma peça
teatral, cujo título era: Frida.
Além dos óleos
sobre tela, a pintora nos deixou um diário
ilustrado de grande riqueza sentimental.
Publicado na íntegra pela primeira vez, o
surpreendente diário documenta os dez últimos
anos de sua vida turbulenta. Este registro
íntimo foi guardado a sete chaves durante cerca
de quarenta anos e contém pensamentos, poemas,
sonhos, e reflete o seu tumultuado relacionamento
com o marido, Diego Rivera. As setenta gravuras
coloridas no diário - desenhos alegres - fazem
com que se penetre no processo criativo da
artista, e mostram como ela costumava usar o
diário para formular idéias pitorescas para
suas telas.
Grande parte de
sua obra é constituída de auto retratos, que
mostram uma artista decepada pelo destino. Os
seus quadros refletem sofrimento, são mórbidos,
mas líricos ao mesmo tempo. O grande escritor
mexicano Carlos Fuentes, escreveu a seu respeito:
"O corpo é o templo da alma. O rosto é o
templo do corpo. E quando o corpo decai, a alma
não tem outro santuário a não ser o rosto.
Nascida com a revolução, ela tanto reflete como
transcende o evento central do México no Sec.
XX. Ela o reflete em suas imagens de sofrimento,
destruição, chacina, mutilação, perda, mas
também nas imagens de humor e de alegria, que
tanto marcaram a sua vida penosa. (...) Em Kahlo
há um humor que transcende a política e até
mesmo a estética, que faz cócegas nas próprias
costelas da vida. O diário é o melhor exemplo
desse desrespeitoso, trocadilhesco gênio da
linguagem do humor, que fazia de Kahlo aquela
meiga e, afinal de contas, feliz personagem,
apesar de todo o seu sofrimento. Sua voz, dizem
todos os que a conheceram, era profunda, rebelde,
pontuada por gargalhadas e palavrões".
Em 1950, aos 43
anos de idade, Kahlo submete-se a seis
operações na coluna, o pé começa a gangrenar
ela precisa hospitalizar-se por causa de uma
infeção aguda nos ossos enxertados. Enquanto
tem forças, pinta. Frida morreu aos 47 anos.
Oficialmente, a morte foi causada por
"embolia pulmonar", mas há suspeita de
suicídio. Pouco antes de morrer, teria dito:
"Tomara que nunca mais eu precise
retornar".
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