Um Gênio Esculpido pela Doença
Abelardo de
Carvalho
Filho de escrava, Antônio
Francisco Lisboa, o Aleijadinho, foi um mulato
baixo, gordo e cabeçudo. Isto, numa época de
terríveis preconceitos. Devido às deformações
físicas, recebeu o apelido que o eternizou como
o maior escultor barroco das três Américas.
Aleijadinho hoje é um nome reconhecido em todo o
mundo e figura ao lado de artistas como Bellini,
Michelângelo e Rodin. A madeira e a pedra sabão
foram a matéria prima para sua arte: passos,
profetas, imagens, crucifixos, fontes, pias,
portas, púlpitos, brasões, lavados e igrejas.
Aleijadinho, desde menino,
acompanhou o pai nos seus trabalhos de
entalhador, desenhando fachadas de igrejas e
ajudando nos projetos. Apesar de ter esculpido
pessoas e anjos, de ter executado um conjunto de
obra invejável, ninguém jamais o retratou,
enquanto vivo. Não há registro de sua imagem,
porém; apenas a descrição física de seu
rosto, sua estatura e sua cor. Mas não há como
negar que o Barroco Mineiro tratou de revivê-lo
em suas próprias criações, isto é, existe um
pouco de Aleijadinho em cada um de seus profetas,
um pouco de sua dor, de sua deformidade e de sua
solidão forçada.
O artista nasceu em Vila Rica
(hoje, Ouro Preto), então capital de Minas
Gerais. Viveu a idade do ouro, viu o apogeu da
mineração e o seu declínio. O trabalho de
mineração, feito em sua maior parte por
escravos, permitiu o desenvolvimento das artes.
As construções religiosas, por outro lado, são
as que vão salientar mais o luxo da época.
Mediante isto, podemos assegurar que o lugar e a
época contribuíram muito para que o artista
esculpisse o seu nome para sempre na história
artística de nosso País.
Foi contemporâneo de poetas
como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da
Costa e Alvarenga Peixoto, além de Tiradentes.
Vivendo neste ambiente de intensa criação
artística, agitação política e poderio
econômico, Aleijadinho, através de seu gênio,
foi capaz de ultrapassar a arquitetura e a
escultura de seu tempo. Até a metade do século
XVIII, a arquitetura religiosa de Minas é
considerada uma das mais pobres, em relação ao
resto do País. Mas movida pelo ouro e o gênio
de muitos artistas, dentre os quais o próprio
Aleijadinho, logo atingiu a vanguarda.
Sua obra é rica em detalhes e
as esculturas sugere um artista viajado, lido e
muito estudado. Mas Aleijadinho nunca saiu de
Minas, não leu mais que a Bíblia e outros
pouquíssimos livros. Seus mestres foram seu pai,
os frades e os artistas com quem trabalhou.
Devido as dificuldades de comunicação, o estilo
barroco, que já havia dominado a Europa, somente
chegou ao Brasil um século depois. Em Minas,
devido ao ouro, o barroco se enriqueceu e novas
formas foram brotando, em meio ao ouro e muitos
azulejos. A capela de São Francisco de Assis
tornou-se motivo de orgulho para os habitantes de
Vila Rica.
Em sua passagem pela cidade,
Mário de Andrade comentou a obra do mestre:
"As igrejas do Aleijadinho não se acomodam
com o apelativo belo, próprio à São Pedro de
Roma, à catedral de Reims, ou à horrível São
Marcos de Veneza. Mas são muito lindas, são
bonitas como o quê. São de um sublime
pequenino, dum equilíbrio, duma pureza tão bem
arranjadinha e sossegada, que são feitas para
querer bem ou pra acarinhar, que nem na cantiga
nordestina".
Quando Aleijadinho esculpiu os
sete Cristos para seis capelas dos Passos, deu em
cada imagem um vigor especial ao sofrimento. Mas
em todas elas, a estrutura física é a de um
homem atlético. Já nesta época, sofria com a
misteriosa doença que o surpreendeu aos 47 anos
de idade. Quando se viu consumido por ela, tanto
o corpo quanto o temperamento, Aleijadinho se
fechou: de alegre e extrovertido, passou a triste
e recluso. Saía à rua somente quando
necessário, coberto por uma capa e sob um
chapéu de abas bem largas. Talvez ele não fosse
hoje o mesmo Aleijadinho que conhecemos através
de anjos e profetas, livre da dor. É bem
provável que a doença e o sofrimento tenham
esculpido o seu gênio criador.
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