Michelângelo e o Apogeu da Arte

Abelardo de Carvalho

O Renascimento Italiano foi talvez o momento mais exuberante da história da arte e, Michelângelo, o seu apogeu. Nenhum outro escultor atingiu o cerne do mármore com tamanho esplendor. Nenhum outro afresco se iguala aos da Capela Sistina. O teto foi confiado ao artista quando ele tinha 33 anos e o seu término se deu em três anos, deixando um desvio em sua coluna.

Duas décadas depois, ele estava de volta para pintar a parede do altar e mais outros três anos foram gastos. As figuras humanas desnudas causaram reações diversas e após a morte do pintor, alguns corpos foram cobertos, por determinação do Papa. Michelângelo achava que nenhum tecido se igualava à textura da pele, nem sapato algum se equiparava às minúcias do pé. O artista, optando pelo o que havia de mais violento e perturbador na bíblia, arrancou, com seus espírito atormentado, uma frase do livro Apocalipse: Dias de Ira!

Amante das formas musculosas e bem definidas, herança grega, retratou as feições masculinas até em suas figuras femininas. Ninguém, na história da arte, atingiu a divindade como o artista Michelângelo, e, no entanto, o homem Michelângelo nada tinha de sagrado. Seus poemas profanos não me deixam mentir. Trabalhou em seus afrescos contrariado e transformou a sua ira pessoal em motivação. É sabido que ele preferia a escultura aos pincéis, mas praticamente foi obrigado, pelos papas da época, a se dedicar à pintura.

Em pleno 1500, no seio da igreja moralizante e inquisidora, Michelângelo encheu as paredes do Vaticano com corpos nus, membros à mostra, retratando, inclusive, uma cena de felação entre Adão e Eva. Não há como escapar, seus afrescos condenam a humanidade a queimar no fogo de seu gênio tempestivo. Bebeu do Inferno de Dante e fez de Cristo uma figura vigorosa, robusta e quase impiedosa.

Foi, antes de tudo, um escravo da arte, assim como poucos. Enquanto Leonardo Da Vinci pesquisava e explorava técnicas e possibilidades, abandonando os projetos na medida em que os dominava, atrás de novas experiências; Michelângelo levava a cabo as suas obras, depois de anos de trabalho. É bem verdade que a Monalisa de Da Vinci é a obra de arte mais famosa e a sua Santa Ceia a mais reproduzida, mas basta depararmos com os afrescos da Capela Sistina e averiguarmos o conjunto de sua obra, para estarrecermos com o talento e o fôlego de Michelângelo. Num certo sentido, Da Vinci era teoria; Michelângelo, prática.

Rafael, o terceiro nome do renascimento italiano, retratou a ambos em sua Escola de Atenas, como Platão e Aristóteles. E os dois se faziam traduzir pelos gestos: Platão/Da Vinci apontando para os céus e Aristóteles/Michelângelo para o chão.

Michelângelo viveu mais de 90 anos e achava a escultura a mais nobre de todas as artes. Dedicou bom tempo de sua vida esculpindo o mármore que ele mesmo fazia questão de escolher junto à cidade de Carrara, ainda hoje o melhor existente. Várias de suas esculturas nos dão a impressão de que estão tentando se livrar da pedra. Quanto a isto, ele disse: "Esculpir é tirar os excessos". Conta o biógrafo Vasari, contemporâneo do artista, que Michelângelo, depois de terminar o Moisés e diante de sua perfeição, teria batido no joelho da escultura e pronunciado a tão difundida expressão: Parla!

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