Minas e a Tradição da Arte Religiosa
Abelardo de
Carvalho
I
O Barroco
Mineiro é o expoente da arte sacra não só no
Brasil como em todo o Continente Americano.
Grandes muralistas como Rivera, Oroscos e
Siqueiros, abordaram principalmente temas
sociais. Manuel Atahide e Aleijadinho são
referências mundiais de arte religiosa. Ainda
há pouco, durante a Copa do Mundo na França, em
pleno Museu do Louvre, uma exposição brasileira
despertou grande interesse aos franceses, não
pela nudez de nossas mulatas, não pela
exuberância de nossas florestas, mas pelo
requinte das cores e dos contornos da arte
barroca mineira.
Atahide e
Aleijadinho são hoje nomes em alta no cenário
mundial. Com um atraso de duzentos anos, eles
foram finalmente reconhecidos e reverenciados no
velho Continente, não só pelo meio artístico e
intelectual, como pelo público em geral. É
preciso entender o quanto o pintor Atahide foi
importante para Aleijadinho e vice-versa. As
principais imagens deste escultor receberam
policromia e encarnação do outro. As peças do
Passo de Congonhas, por exemplo. Muitas dos
altares de Aleijadinho receberam o cuidadoso
douramento do mestre de Mariana.
Segundo a tese
barroca, a arquitetura, a pintura e a escultura
deveriam interagir permanentemente. Em
princípio, nenhuma arte deveria sobrepor-se à
outra, para efeito de conjunto. Mário de
Andrade, que percorreu ainda jovem as principais
cidades históricas de Minas, teceu a este
respeito o seguinte comentário: "A
orientação barroca, que é o amor pelas linhas
curvas, dos elementos contorcidos e inesperados,
passa da decoração para o próprio edifício."
Barroco é um
termo derivado da palavra espanhola barueco,
que significa pérola irregular. Na tradição do
barroco mineiro, os símbolos são a própria fé
revigorada. Os anjinhos meninos representam o
amor divino. As flores, representações da
beleza da alma e da fugacidade das coisas. Os
feixes de folhas sugerem o triunfo de Jesus sobre
o martírio. E os espinhos, emaranhados ásperos,
lembram a consciência da dor do pecado. Os ramos
de videira e cachos de uvas evocam o sangue de
Cristo. As conchas pregadas no peito, identificam
os peregrinos que iam ao santuário de Santiago
de Compostela, na Espanha, no século XI.
A exposição
"O Universo Mágico do Barroco"
reunindo 400 peças deslumbrantes do período
colonial está em São Paulo e já foi visitada
por mais de cento e vinte mil pessoas. Em maio, a
Christies de Londres, a mais famosa casa de
leilões do mundo, vendeu, pelo preço recorde de
420,000 dólares, uma imagem de Nossa Senhora das
Dores esculpida por Aleijadinho.
I I
No primeiro
período do barroco mineiro (1700 - 1730), Igreja
como a de Nossa Senhora do Ó, em Sabará,
construída em 1719, o retábulo do altar,
esculpido em madeira, formava uma verdadeira
caverna dourada. Todos os espaços disponíveis
em paredes e tetos eram profusamente decorados. O
período Joanino (1730 - 1760) é marcado pelo
gosto italiano do rei português. A arquitetura
adota linhas curvas, naves alongadas e torres
circulares, como na igreja Nossa Senhora do
Rosário, em Ouro Preto. O altar desta igreja
ressalta a ornamentação das esculturas. Já no
período Rococó (1760 - 1800) as fachadas
tornam-se mais leves e audaciosas, com elegantes
torres redondas e portadas com relevo de pedra
sabão. Os templos projetados por Aleijadinho,
como a igreja de São Francisco de Assis, em S.
J. Del Rey, são obras-primas da época. O estilo
Rococó aliavava o exagero ornamental e
proporcionava maior moderação arquitetônica.
Ofuscado talvez
pela grandiosidade de Aleijadinho, o português,
Francisco Vieira Servas, só agora está
recebendo a atenção que merece. Sua obra
alcançou os dois últimos períodos do barroco
mineiro e é constituída por um valioso conjunto
de retábulos e esculturas, embora não tenha
sido devidamente pesquisada. Nasceu em Portugal,
no ano de 1720, na Comarca de Guimarães. Seu
primeiro trabalho no Brasil, que se tem notícia,
data de 1752 e foi realizado na Matriz de Nossa
Senhora da Conceição, na cidade de Catas Altas
do Mato dentro. Francisco Vieira Servas viveu a
fase mais rica em confecções de retábulos e
imagens religiosas na Capitania de Minas Gerais,
que foi os meados do século XVIII. Entretanto,
no início do século, os carpinteiros ou
pedreiros era quem contratavam os oficiais
especializados.
O pai de
Aleijadinho, Manoel Francisco Lisboa, embora não
fosse escultor nem entalhador, recebia da coroa
portuguesa, por ser confiável, o encargo de
arregimentar serviços especializados. Os
oficiais entalhadores e escultores daquela época
precisavam de um certificado para exercerem o
trabalho, uma espécie de licença expedida pelos
Senados das Câmaras, após exame de aptidão,
perante os juizes. Em Lisboa, sabe-se que para a
regulamentação da profissão, o entalhador
precisava confeccionar três diferentes
esculturas, conforme consta no livro: "As
corporações dos ofícios mecânicos", de
Franz Langhans. Um Cristo de três palmos de
comprido posto no seu calvário, uma imagem de
Nossa Senhora também do mesmo tamanho e um
menino Jesus.
O artista
Francisco de Faria Xavier talvez tenha sido quem
mais influenciou a obra de Servas, tanto no que
concerne às características estilísticas
quanto às anatômicas. Servas trabalhou até a
morte, pois, aos 86 anos de idade, ainda assinava
contratos para a confecções de grandes
retábulos, como o do Carmo de Sabará. Neste
caso, contou com a colaboração de outro
entalhador, companheiro e sócio do artista
português. Nesta época, pelo que se supõe,
Servas já se tornara uma espécie de
empresário, que se aliava a outros artistas para
viabilização dos projetos. Paralelamente, é
possível que tenha dado aulas para os mulatos
nascidos livres ou escravos forriados. Sua morte
se deu em 1811 e mesmo em idade avançada,
mantinha-se solteiro, embora vivesse com uma
negra de nome Juliana Maria dAssumpção.
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