O Ritual da
Fertilidade
Abelardo
de Carvalho
Yerma quer
dizer: árida, pouco fértil, desértica.
Talvez esta seja a peça mais conservadora do
poeta e dramaturgo espanhol Federico Garcia
Lorca, fuzilado em 1936 pelo exército
franquista. A personagem Yerma não
conseguia se engravidar e nisto residia todo
seu drama pessoal. Pois, segundo os costumes
da Espanha medieval, estava mancomunada com o
demônio a família que não conseguisse
procriar. O adultério poderia solucionar o
empasse, mas a moral da época e da
personagem a impediam de consumá-lo.
A peça, um
poema trágico em três atos e seis quadros,
conforme assinala o autor, dá-se numa
sociedade ainda mais machista que a atual. O
homem medieval não assumia nem admitia a sua
própria impotência de fecundar. A culpa era
sempre da mulher. E, para livrá-lo do vexame
da impotência, o homem medieval criou o
Ritual da Fertilidade. Mas, o que venha a ser
o Ritual da Fertilidade?
O touro
sempre foi, na Espanha, um símbolo
importante dentro de sua cultura de mitos e
lendas. Por isso, na peça, o Macho, um ator
bailarino contratado para excitar os
participantes do Ritual da Fertilidade, com
sua dança sensual e provocante, aparece
sempre escondido sob a máscara do touro. As
mulheres participam do ritual orgíaco e se
engravidam. Mas, conforme a tradição, e
embora elas tivessem liberdade para copularem
com vários homens da aldeia naquele dia,
não era deles o filho que elas gerariam, mas
de Deus.
A sociedade
medieval não aceitava que as mulheres
traíssem os seus respectivos maridos, mas no
dia do Ritual da Fertilidade, a traição era
não só recomendada como estimulada por
todos os familiares. Com o advento do rito,
vários lares entraram em harmonia, pois, o
demônio da esterilidade era exorcizado com a
chegada do primogênito. O carnaval, como
sendo a festa da carne, certamente é uma
ramificação do Ritual da Fertilidade. Ambos
se originam do mesmo ponto: as festas
dionisíacas da Grécia Antiga e,
posteriormente, os bacanais romanos, onde a
orgia e a libertinagem era regida pelo vinho,
o mais afrodisíaco de todos os paliativos.
Na montagem
teatral do diretor Cláudio Rodrigues,
ocorrida na cidade do Rio de Janeiro no ano
de 1988, coube-me o papel do macho fantasiado
de touro, símbolo da virilidade e da força
física. A sensualidade da peça foi captada
pelo figurinista que se utilizou de poucas
vestimentas e, na maioria das vezes, em tons
pastéis. Os corpos do atores estavam quase
sempre molhados, o que evidenciava ainda mais
a sensualidade e o desejo da personagem Yerma
de se entregar ao adultério como forma
de saciar a sua fome de procriação.
O cenário,
concebido por um artista carioca, recém
chegado da Europa, impressionou-nos sobretudo
pela beleza plástica, embora fosse pouco
prático. Várias vezes ocorreram
escorregões durante as representações,
pois, segundo concepção do cenógrafo, a
peça se deu dentro de uma piscina que, a bem
da verdade e muito a propósito,
assemelhava-se a um útero materno. Quando no
final da peça, Yerma matava o próprio
marido, a água da piscina se tingia de
sangue e era como se ela estivesse abdicando
de seu próprio filho. A trilha sonora, Amor
Bruxo, a mais magnífica e macabra
música composta pelo compositor espanhol,
contemporâneo e amigo pessoal de Lorca,
Manuel de Falla, dava a medida certa do tom
medievo e desesperado que a cena exigia.