Van Gogh, O Artista da
Fome
Abelardo de
Carvalho
Vicent van Gogh
é exemplo clássico de fracasso em vida. Vendeu
uma só única tela em toda a sua existência.
Quanto a isto, profetizou: "Não posso
evitar o fato de que meus quadros não sejam
vendáveis. Mas virá o tempo em que as pessoas
verão que eles valem mais que o preço da
tinta". Sobreviveu de favores, de mesadas
pagas pelo irmão Théo. Apaixonou-se quando
jovem por uma prima, mas não foi correspondido.
Para provar à família o alcance de sua paixão,
deixou-se queimar numa chama de vela e pela
primeira vez foi chamado de louco.
Quem nunca ouviu
falar do pintor holandês que decepou a própria
orelha e a enviou à uma prostituta? Van Gogh
trabalhou como artista somente nos últimos dez
anos de vida, isto é, doa 27 aos 37 anos, quando
morreu. Durante os primeiros dois anos, ele
somente desenhava, procurando aprender a
desenhar. Em seu "Carpinteiro", de
1880, Van Gogh ainda lutava com problemas de
proporção e posicionamento de formas. Mas, dois
anos depois, podemos constatar que ele já tinha
suplantado suas dificuldades com o desenho e
aperfeiçoado a qualidade expressiva do seu
trabalho.
Para Van Gogh, o
mundo é um esboço de Deus que não deu certo.
Extremamente solitário, sonhou em fazer, de sua
casa amarela de Arles, uma colônia de artistas,
sob a liderança de Gauguin (1848-1903). Pintou
várias obras primas para aguardar o amigo, mas a
idéia não vingou. Sua reputação está calcada
nos quadros que produziu nos últimos quatro anos
de sua vida. Após sua chegada a Paris, ele
abandonou o seu estilo sombrio, influenciado
pelos impressionistas e pelas cores vivas das
gravuras japonesas.
Segundo Artaud,
Van Gogh é um suicidado pela sociedade.
"Sua pintura ataca, não um determinado
conformismo dos costumes, mas das instituições.
E até a natureza exterior, com seus climas, suas
marés e suas tormentas não pode mais manter a
mesma gravitação depois da passagem de van Gogh
pela terra. O que é um autêntico
louco?..., prossegue Artaud, ...é um
homem que preferiu ficar louco, no sentido
socialmente aceito, em vez de trair uma
determinada idéia superior de honra
humana. Pois o louco é o homem que a
sociedade não quer ouvir e que é impedido de
enunciar certas verdades intoleráveis.
Em todo demente há um gênio
incompreendido cujas idéias, brilhando na sua
cabeça, apavoram as pessoas e que só no
delírio consegue encontrar saída para o
cerceamento que a vida lhe preparou."
Talvez a cena
mais polêmica do pintor tenha sido a orelha
cortada. Várias interpretações foram dadas,
por biógrafos e contemporâneos do artista,
entretanto, foi o cineasta japonês, Akira
Kurosawa, no filme Sonhos, quem nos legou
a versão mais poética. Na película sobre a
vida de Van Gogh, o artista dos girassóis
aparece tentando pintar a própria orelha, mas o
resultado é insatisfatório. Não vendo outra
saída, o van Gogh do filme a decepa, resolvendo
assim o seu problema pictural. Vicent van Gogh
morreu na cidade de Arles, França, depois de
disparar um tiro no peito. A arma fora conseguida
por empréstimo, mediante o argumento de que
serviria para espantar os corvos. A última tela
do pintor holandês retrata justamente os corvos
sobrevoando belíssimos trigais. Horas antes de
morrer teria dito ao irmão Théo: "A
miséria triunfou mais uma vez. A fome...!"
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