Zwarg
Abelardo de Carvalho
Ernesto Zwarg,
73 anos, é o que se pode chamar: um homem de
fibra. Descendente de alemães, herdou do pai a
coragem e a impetuosidade; e, da mãe, a
sensibilidade artística. É uma criatura que
está quase sempre metido num desvario de louco,
pois tem a árdua missão de salvar o mundo! Como
se isto fosse mesmo possível.
Zwarg foi
responsável direto pelo tombamento da mata da
Juréia, sul de São Paulo. Quando descobriu um
projeto de cidade, de 300 mil habitantes, no seio
da mata, Zwarg alugou um avião e convenceu o
secretário de Meio Ambiente paulista a sobrevoar
a floresta. A partir desta iniciativa, o
tombamento se concretizou e a Juréia foi salva.
Há 50 anos, o ambientalista promove uma
caminhada anual pela mata e praias que compõem a
reserva. O cenário é realmente paradisíaco. O
que no princípio era uma empreitada solitária,
hoje se transformou em caravanas de até 500
pessoas. A travessia se dá durante os festejos
de Bom Jesus de Iguape, em Agosto.
Atualmente, o
ambientalista luta pela abertura da floresta,
cuja entrada está proibida ao público em geral.
Zwarg acusa o governo de permitir a biopirataria.
E denuncia os cientistas estrangeiros de estarem
explorando o ecossistema sem favorecer os
nativos, que ainda moram, miseráveis, no local e
estão isolados do resto do mundo.
Zwarg é um
briguento, conhecedor de seus direitos e
revoltado com o sistema. Foi o primeiro homem a
impedir, em Itanhaém, SP, a construção de
prédios na praia, sem planejamento de esgoto.
Ganhou a ação na justiça, inclusive no supremo
e foi notícia até mesmo no New York Times.
Ainda na década de setenta, em plena ditadura
militar, denunciou e impediu a instalação de
usinas nucleares na reserva da Juréia. Mediante
um foro ecológico realizado, por ele, nas
ruínas do Abarebebê, em Peruíbe, SP, no qual
compareceram diversas autoridades internacionais,
inclusive, soviéticas, o governo brasileiro
recuou e desistiu dos projetos, que acabaram se
transferindo para Angra dos Reis.
Aos 17 anos de
idade, depois de assistir pelo cinema ao papa
abençoando os canhões da Itália fascista,
Ernesto Zwarg escreveu carta ao pontífice,
pedindo a este que o excomungasse, por descordar
de suas atitudes. Para devolver a praia aos
banhistas, confiscada, na época por um grande
hotel, na ilha de Cananéia, SP, Zwarg alugou um
barco, convidou autoridades e simpatizantes à
causa e zarpou rumo à ilha. Vestido a caráter,
isto é, de pirata, e amparado pela mídia,
invadiu o hotel e conseguiu, sem saqueá-lo nem
derramar sangue, restitui-lo à população.
Eêêê
Parnapuan Fermoso! Seu grito de guerra, pode ser
escutado toda vez que atravessa a ponte sobre o
rio Ribeira de Iguape. Como vereador reeleito
três vezes pela cidade de Itanhaém, Zwarg
protegeu a natureza e os índios. Em seu primeiro
mandato, aprovou mais projetos de lei que todos
os outros vereadores juntos, nos últimos vinte
anos de Câmara Municipal. É um fenômeno!
Furacão em constante turbulência, andarilho
incansável e venerador de Henri Thoureau, o
anarquista genial que influenciou Gandi com seu
livro Desobediência Civil.
Pela manhã, ao
invés de nos desejar um bom dia, Zwarg brada: A
propriedade é um roubo! E neste desvario ele se
sustenta. Certo dia, a caminho de Iguape, pude
observá-lo mais detidamente. Como se a morte o
esperasse do outro lado do rio, ele criava
alucinadamente, mesmo com o carro em movimento.
Anotava, em papel ordinário, rascunhos de
poemas, letras de músicas, esboçava projetos,
desenhava, cantava, chorava e dava gargalhadas,
quase tudo ao mesmo tempo. Vendo-o naquele
estágio febril de criação, não tive dúvida:
estou diante de um louco genial!
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